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Pedagogia da meninice à puberdade

Entrevista com Joëlle Richardière

Nós estamos em um velho quarteirão da 11. Subprefeitura de Paris, Rua dos Três Limites. Nós empurramos uma porta e nos encontramos no lugar de nosso encontro, um pequeno salão chamado :“O Jardim das Fadas”, onde descobrimos quadros que representavam fadas, anões, gnomos e, pintada sobre uma parede, uma cena da natureza. Foi nesse ambiente acolhedor que Joëlle Richardière nos recebeu.

L.G.: Joëlle Richardière, obrigado por ter aceitado nossa entrevista. A primeira vez que eu ouvi falar de seu trabalho, foi no fórum de educação alternativa. Você é pedagoga e artista pintora; a senhora trabalhou com a infância e adolescência e hoje trabalha essencialmente com a criança: por quê?

Joëlle R. : Devido às circunstâncias da vida e igualmente de nossa sociedade. Eu constatei que no curso de 20 séculos, cada vez mais, puseram-se a trabalhar, o meio moral evoluiu, mudou, e nós nos encontramos com essa problemática da infância e da guarda das crianças. 

A resposta enquadrou-se unicamente no domínio da saúde e social, tanto que, na França, o domínio das creches, vigilantes de creche; assistentes maternais dependem do Ministério da Saúde e Social e não da pedagogia.

A formação é essencialmente médica. Eu fui, pois, levada a intervir nas creches, principalmente as parisienses. Pontualmente, fiz intervenções, ajudas, encontros pedagógicos ou conferências e colaborei na reestruturação de uma creche. 

Por meio desta bela experiência, eu fico em contato estreito com o pessoal e os pais, colocando o bem-estar da criança no centro. As situações mostram que há uma grande ignorância do que é realmente a criança e as necessidades que lhe concernem, mesmo em pessoas bem intencionadas que têm sensibilidade de coração e intuição natural sobre ele.

Isso concerne também às coletividades, pois indo nesses lugares, eu sinto realmente que as pessoas sofrem e que chegamos a aberrações. É preciso colocar as perguntas: o que é, em profundidade, uma criança? O que são sua individualidade, suas necessidades, ser respeitada enquanto indivíduo? Pessoalmente, em certos contextos, eu incluo a dimensão espiritual.

L.G.= A senhora escreveu: “O bebê se adapta ao nosso mundo pelo princípio de imitação, enquanto seu mundo é ainda impregnado de imagens espirituais”. Que sentido a senhora dá a essas imagens espirituais e, para a senhora, o que é o nascimento?

J.R.= Para mim, a criança vive etapas progressivas para se encarnar, isto é, a partir do momento do nascimento e durante toda a infância, sua encarnação é progressiva, particularmente durante seus primeiros anos.

L.G.= Quando a senhora fala de encarnação, isso significa que bem antes de vir, ele estava em outro lugar?

J.R.= Sim, para mim ele estava no mundo espiritual, é qualquer coisa que eu senti interiormente, depois estudei: eu mesma, quando criança, eu tinha essa convicção na minha relação com a natureza, justamente como uma certeza interior dessa dimensão espiritual do indivíduo, mesmo se em volta de mim esse estado de espírito não era partilhado.

O recém-nascido é um ser espiritual e ele não tem suas marcas no mundo terreno imediatamente. Como adultos, como pedagogos, nós temos a responsabilidade de ajudá-lo a encontrar suas referências, já que ela está entre esses dois mundos. É por isso que esse período da primeira infância tem necessidade de uma real pedagogia para compreender e acompanhar conscientemente o que o ser vive.

Nela, ainda, essas aproximações eram conhecidas pela Antigüidade, mesmo Platão, em parte na “República”, como outros pensadores daquelas épocas tinham conhecimento do septenário, o ciclo dos sete anos, bem como da interação com o Cosmos, que fazem com que o
ser se encarne progressivamente e a cada sete anos vive etapas determinantes. 

O livro que dá o esclarecimento mais completo sobre essas diferentes idades da vida é “Ritmos e destinos, ou compreender seu destino por ciclos de sete anos”. Aliás, eu colaborei nas pesquisas dos autores sobre os três primeiros sete anos.

Quando se tem conhecimento dessa sabedoria, já se tem um outro olhar sobre a criança. Nessa época o consideramos sempre como um mini-adulto e isso faz muitos desgastes. Se se leva em conta que a criança é um ser constituído diferentemente do adulto, querendo levá-la muito depressa para um estado de espírito e um comportamento de pessoa grande, privamo-la de suas etapas e ela não pode se
construir. 

Crescendo, essas crianças tornam-se adultos que não são criativos, ficam inseguros, não têm confiança em si próprios e continuam imitando, pois não lhes permitimos viver sua infância. 

L.G.= É preciso, então, ajudar os pais e os profissionais a compreender o conteúdo desses sete primeiros anos?

J.R.= É preciso considerar esses sete primeiros anos como um período de imitação; efetivamente, a criança aprende imitando justamente porque ele não tem as mesmas funções do que o adulto, ao nível das emoções e pensamentos. 

Seu principal meio de entrar em contato com o mundo é integrar-se, deixar-se impregnar do comportamento das pessoas que estão à sua volta e ver como eles se comportam. Não é uma reflexão, é uma penetração lenta e natural e isso é particularmente visível. 

Esse processo já existe por ocasião da gravidez, quando a constituição do corpo da criança se faz por impregnação das substâncias da mãe. Em seguida, a criança absorve tudo o que se passa à sua volta; isso subentende que tudo que se faz na presença de uma criança pequena vai alimentá-lo, digamos, antes dos sete anos, mas ele é menor, mas é importante, isso entra nele, ele não fica separado, ele está em simbiose, isso o penetra e o forma. 

Portanto esse ambiente muito próximo contribui realmente para a formação de seus órgãos, de todo seu ser e em seguida ela ensaia para reproduzir o que ela absorveu. Maria Montessori captou muito bem isso; ela compara esse princípio aquele da fotografia, principalmente pela linguagem e pelo fato de que, durante esses dois primeiros anos, a criança tem uma capacidade inacreditável para se deixar impregnar pelos sons e chegar a reproduzir frases perfeitamente construídas, de uma maneira totalmente mágica, pois ela integra toda uma cultura com as sutilezas da língua. 

Ela realmente recebeu uma capacidade espiritual de impregnação que acorda os sentidos e os órgãos, em função do ambiente, para que a criança se torne pouco a pouco emissor, por repetição daquilo que recebeu. A criança acorda para a consciência pelo uso de seus sentidos, e é justamente porque atingiu uma certa consciência de seu corpo que ele perde seus dentes de leite que foram conformados graças à energia de sua mãe.

L.G.= Daí a importância da aptidão do pessoal das creches em relação às crianças?

J.R.= Sim, em relação à nossa época, fui levada a estudar as conseqüências de um bom ou de um mau ambiente, quando eu digo bom, eu quero dizer natural, isto é, coisas realmente muito simples que comportem muito equilíbrio, elementos naturais, calma, muita espontaneidade humana e calor do coração.

O ideal seria que os adultos que estão em volta da criança tenham um pensamento muito forte para manifestar essas verdades profundas até em seus gestos.

Há pessoas que têm verdadeiramente esse dom e outras que não o têm e que dificilmente podem ocupar-se com as crianças pequenas. Portanto para alguns, isso é espontâneo, eles têm essa consciência. Quando da procura do pessoal para as creches, é impressionante constatar que isso aparece como uma evidência.

Depois, quando a pessoa que não tem esse dom natural faz uma formação, isso vai lhe pedir um esforço enorme, porque isso está no gesto, nos membros, na aptidão!

É difícil adquirir essa linguagem do gesto. Tomemos uma criança pequena: se queremos, pó exemplo, mudar de atividade, eu parto das coletividades, onde se é levado, apesar de tudo, a analisar crianças de dois a três anos que andam e começam a falar, se lhe dizemos bruscamente: “pare de brincar, nós vamos fazer outra coisa”, seja comer ou ir ao jardim, a criança choca-se, porque isso é intelectual, é abstrato e ele vive no presente. 

Ele não pode assimilar conceitos abstratos, mas se o convidamos para um jogo, um canto e se nos movimentamos por nós mesmos, ele nos segue porque, curioso, ele diz: “o que se passa, outra coisa acontece!” e então ele não tem mais medo, pois essa linguagem é compreensível para ele.

É preciso que a educadora seja capaz de entrar na linguagem do gesto e que ela faça coisas com uma escuta profunda de todos os sofrimentos que podem sensibilizar a criança e que possa responder também dessa mesma maneira.

Se uma criança está agitada, a primeira coisa a fazer é ser hiper calma, isso significa ter um pensamento forte, pois o reflexo do adulto, se a criança está agitada, é ficar agitada por essa agitação e, forçosamente, o adulto mais o ficará, e a criança entra nesse comportamento que as mamães menos inteligentes e estressadas conhecem, enquanto que, quando se sabe isso, pode-se dar os meios de um ritmo mais lento e estabelecer esse diálogo, onde se ensina a criança por imitação.

L.G.= Nesse contexto, o que a senhora pensa dos novos meios de comunicação que invadem os lares, tais como o computador, a televisão, etc?

J.R.= Sim, efetivamente, isso pressupõe não deixar intervir certos elementos de nossa vida moderna na vida da criança. Eu penso sobretudo em certas tecnologias onde há ritmos de vida muito rápidos, muito estressantes, onde a criança não pode ficar sensibilizada por aquilo que é a vida terrena. 

Se nós o colocamos muito rápido no mundo virtual, a informática, mesmo diante da televisão ou a escutar sons retransmitidos pelos aparelhos antes que pela voz, ele vai justamente formar sua voz por imitação aos aparelhos. 

Eu encontrei crianças que não tinham mais sensibilidade na voz por esse fato. Podia-se constatar a mesma coisa com a formação dos outros sentidos, como o olho ou o ouvido, por exemplo. Isso não é
teoria. Eu mesma notei que isso evolui muito rápido, de uma semana para outra, o bebê muda, e, de um mês para outro, as faculdades e as necessidades, muito individuais, até os 18 meses, mais ou menos, se transformam. 

Em seguida, aparece esse nosso imperativo de guarda que eu não tenho vontade de rejeitar, pois penso que ele é necessário à mulher para se individualizar. Eu vejo mulheres que assumem caminhos interessantes e que têm uma certa consciência. 

Elas têm necessidade de ir para fora, de encontrar pessoas, de ter uma criatividade que desenvolvem mesmo em sua casa. Na hora atual, nós estamos em uma mudança realmente importante e, com referência a isso, há uma certa culpa por parte das mulheres; do homem também, mas diferente.

L.G.= Profissionais como a senhora podem trazer uma grande ajuda, porque os pais têm necessidade de interlocutores, eles não sabem tudo!

J.R.= O problema é que eles não recebem os conhecimentos necessários e, por isso, eles têm necessidade deles. São conhecimentos que devem ser dados na adolescência.

Hoje, ter filho deve ser uma escolha. As jovens gerações vêem as coisas de um outro modo e eu penso que está certo. O ser humano torna-se criador de outra forma, ele toma as rédeas progressivamente, aprende a exteriorizar seu amor, sua beleza, sem que pense ser necessário ter filhos. 

Ao mesmo tempo, as crianças que estão aí têm faculdades importantes, elas têm necessidade de uma escuta e de uma qualidade de vida que evolua. Da parte dos adultos que a cercam, eles atendem o despertar da consciência mais fortemente do que em outras épocas. 

A escolha de ser pai pede ao homem como à mulher não só de ter um verdadeiro amor para com a criança, mas também de estar disponível. Nós estamos pela primeira vez em uma civilização muito materialista e que um abismo separa nossos hábitos de vida daquilo que a criança tem necessidade para se expandir.

L.G.= O fato de que haja crianças que têm uma consciência mais forte e que obrigam os pais a evoluir, a senhora relaciona a quê?

J.R.= À necessidade de evolução comum, porque frequentemente há um amor forte entre os pais e as crianças. O adulto pode chegar a transcender-se por amor a seu filho. Eu vi isso frequentemente e eu penso que o ser humano evolui, ele é diferente daquele de séculos passados, ele tem um pensamento e consciência de si cada vez mais fortes. 

Para mim, na história da humanidade, houve um acontecimento importante com a encarnação de Cristo. Isso é algo profundamente espiritual que, em minha opinião, mudou a história dos seres humanos e que nós apreendemos docemente, mesmo que isso faça 2.000 anos. É necessário tempo para que assimilemos acontecimentos tão fortes. 

Eu penso que o ser humano está em vias de mudar profundamente e que as crianças que chegam sonham em realizar-se, em revelar-se, eles não querem apenas prolongar a cultura de um clã ou de uma célula social ou geográfica. O indivíduo deseja colaborar com o futuro da humanidade, com o que acontece. Desde a infância, ele tem a necessidade de reencontrar suas forças em profundidade. 

Eu pouco estudei, entre outros, Steiner (1). Ele dizia que o adulto que se torna aventureiro, deve-o àquela que o amamentou, ele lhe deve à maneira com que ela o alimentou nos primeiros anos.

L.G.= Como se pode ajudar a criança a reconstruir as etapas em que ele fracassou em sua infância?

J.R.= Eu pratico principalmente com consulta e é um trabalho muito delicado.
Antes da puberdade, segundo minha experiência, é preciso trabalhar com o meio, a família, pelo menos com um dos pais que está prestes a se transformar por amor ao filho, um pouco, um pouco mais ou enormemente!

Depois da puberdade, é preciso retomar o que se passou e, como por acaso, descobre-se que o problema começou a emergir ao nível da criança que, naquele momento, não fez senão reproduzir o problema da célula da família.

Ora, a criança não está terminada, ela está bem próxima de sua individualidade, ela não tem pensamentos formados, emoções condicionadas. Pode-se, portanto, contribuir para seu despertar, desde que o adulto esteja bem estruturado no começo, eu faço a “sofrologia” e com esse método pode-se fazer a criança progredir muito rápido e constatar que ela não apresenta mais sintomas. 

Mas, se os pais não se mexerem, é uma verdadeira tortura, porque o aliviamos, porém o deixamos no mesmo banho e é horrível. Agora, eu não trabalho com a criança cujo pai não se investe a fundo, porque, quanto mais o trabalho for realizado lenta e progressivamente, mais a criança melhora, mais os pais são remetidos a si próprios. 

Mas, se acerta o problema logo, os pais desaparecem e eles não se remetem mais à questão. É um pouco como a alopatia e as medicinas doces. É preciso acordar as forças no interior do ser e da família. Certamente, quando a criança está melhor e os pais reconhecem que o problema não é o fracasso escolar, mas, por exemplo, um sofrimento mal gerenciado ou outra coisa, chega um momento onde acontece um pouco de discussão. 

Face ao problema e se eles não o querem regularizar, é preciso assegurar, mas se persistimos, está ganho.
Então há cura, o que quer dizer que os pais que se deixam conduzir, remetem-se à questão e frequentemente fazem um progresso.

L.G.= Pode-se dizer que os pais têm chance e que a criança tem merecimento! A senhora leva em consideração a encarnação na aproximação que a senhora tem com aqueles que a senhora encontra?

J.R.= Sim, digamos que a criança também tem oportunidade, quando os pais entendem sua verdadeira mensagem. É quando há um auxílio. É verdade que nesse movimento os pais não são mais os mesmos. Em meu estado de espírito, levar em conta a encarnação é uma evidência e, ao mesmo tempo, isso ultrapassa minha consciência de poder identificar precisamente o conjunto, isso simplesmente faz parte de um
percurso. 

O que eu percebo, é justamente a aspiração do ser humano espiritualizado a progredir em consciência graças à encarnação. Ao nível astrológico também, vêem-se ciclos em que o ser humano tem verdadeiramente vontade de galgar uma etapa importante, onde a dimensão espiritual retoma um lugar, como se ela devesse ser conquistada pelo próprio indivíduo, livremente, por suas próprias forças, como se estivéssemos um pouco em uma encruzilhada, em face de uma escolha livre, onde, justamente, apoderássemos de nossas forças!

É preciso ajudar o ser humano para que ele possa se reconstruir e é quando adulto que ele vai poder melhorar sobre coisas que ele não compreendeu (pode-se então falar de karma). Para mim, enquanto ele for criança, os adultos têm a responsabilidade de fazer com que esse potencial com o qual ele chegou seja protegido e ele possa emergir, é tudo. E, é importante, não se deve procurar influenciá-lo muito.

L.G.= Em resumo, do nascimento à puberdade, a criança deve, pois, estar em contato com a natureza e cercado por sua família o mais próximo possível. É um dever enquadrá-lo até a puberdade.

J.R.= Na maior parte, culturas ancestrais, ritos iniciáticos marcam a passagem para a puberdade e a capacidade de procriar dava uma certa maturidade ao indivíduo e o fazia passar para o clã dos adultos, por exemplo, o jovem caçador ia com os caçadores, as meninas com as mulheres. 

Em nossa época, nós temos um elemento suplementar que é do domínio do pensamento e que mudou há muitos decênios e ao
longo dos séculos. No momento da puberdade, há uma mudança radical. Descobre-se o ser, sente-se uma presença impressionante. Nesta época, não há mais necessidade da mesma proteção, principalmente essa da mãe que deve se afastar, pois ele tem sede de ir para o mundo. 

Mas, com referência à vida de adulto, ele tem necessidade de toda uma fase intermediária, durante a qual ele vai começar a desenvolver iniciativas, uma compreensão dos sentimentos que, até então, passavam por filtros, enquanto que, agora, ele é diretamente atingido. 

É o momento oportuno de levá-lo aos conhecimentos científicos, à astrologia, ao funcionamento do universo, à história da humanidade, porque ele experimenta a necessidade de construir seus pensamentos (lá pelos 18 a 21 anos); sua individualidade se estabelece pouco a pouco, ele sente seu destino. 

Mas ainda não é capaz de gerenciar seu karma nem seu destino, ele tem necessidade de estar em uma peneira intermediária, entre a família e o mundo, entre a sociedade e a vida. A criatividade que ele tem necessidade de desenvolver situa-se aí.

Os rituais que se situam nas civilizações passadas em volta da puberdade têm necessidade de serem melhorados, mas é certo que acontece alguma coisa de importante lá pelos quatorze anos e que isso precisou mudar nestes últimos séculos.

L.G.= Em que idade a senhora situa a orientação escolar como normal?

J.R.= Eu não falarei aqui de vida profissional, porque as orientações fazem muito desgastes. Eu me esforço para, tanto quanto posso, para evitar a orientação precoce, porque agora no maternal, vai-se ensiná-lo a ler e a escrever e isso é justamente a última coisa a fazer nesta idade.

É uma catástrofe, pois, com esses métodos, nós o impedimos de amar o conhecimento. Hoje, no maternal, veste-se ridiculamente a criança com um livro no qual notam-se suas capacidades, suas carências e esse livro irá segui-la ao longo de toda a escolaridade. Há muito a dizer. O fato de levar a orientação profissional muito cedo, cria depressões, imensos sofrimentos e mesmo doenças graves. 

Eu vi casos que podiam ir até a esquizofrenia, com uma tensão extrema entre a força de ser e aquilo que lhe era proposto. Em um momento isso arrebenta, e então faz desgastes que não mais se repara em uma vida.

L.G.= Em nosso sistema, a pressão é tanto mais forte quanto a as dificuldades da criança. Mais ela tem dificuldades e mais depressa exigem dela que se faça uma escolha.

J.R.= E os pais se envolvem. É preciso muita energia para os desencorajar a perderem este hábito. Alguns dizem; “eu forço, não estou de acordo com o sistema escolar, eu forço...” e eu lhes respondo: “ mas, por que forçam, detenham-se e estarão de acordo com os senhores mesmos. Reflitam um instante! 

É o boletim de notas que os coloca neste estado? Não é por isso que ele ficará sem trabalho ou ficará?” Eles ficam completamente em pânico e, de repente, porque nós lhes falamos de outra forma. Eles concluem que podem trocar a criança de escola, toma-se então o tempo para refletir a fim de encontrar uma solução que responda às necessidades
particulares de seu filho.

O fracasso escolar não é senão uma linguagem pela qual a criança exprime um mal estar, é tudo, nada mais. Deixemos o drama. O que há por detrás? Não é o fracasso de uma vida, certamente não! É, porém, o que lhes dizemos. Inflige culpa, é duro.

Aos onze anos, aos oito, dizer à criança: “você não poderá curar as pessoas porque não obteve 14 pontos de média em matemática”, quando há várias maneiras de curar!
Quantas crianças renunciam a esse dom; talvez ele trouxesse faculdades muito profundas e indispensáveis na época!

L.G.= A senhora trabalha praticamente na contramão. A senhora colabora com os pediatras, com os pedo-psiquiatras?

J.R.= Sim, eu trabalho com os profissionais de espírito aberto que, guardadas as proporções, e sem querer mudar o mundo, abrem-se para uma sociedade diferente, a fim de que tenhamos outros valores e os possamos levar naquilo que fazemos. 

Há muito a fazer, mas é preciso ter consciência que colocamos germes, ajudando esses jovens que, eles próprios, poderão ir mais longe. A partir desse trabalho, eu me coloco em questão, porque isso tem sentido para mim.

L.G.= Obrigado, por nos ter dado esta entrevista.

Entrevista colhida por Jacqueline Thibeaudeau

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