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Buscando pelos filhos de ontem

Entrevista com Jenny Cockell

Uma conversa com Jenny Cockell, que foi conduzida a uma busca incomum a partir de suas memórias vívidas de uma vida terrena anterior”!

Introdução

Em 24 de outubro de 1933, Mary Sutton, uma mãe irlandesa de 35 anos de idade, sucumbiu a uma grave doença, poucas semanas após o nascimento de seu oitavo filho, no Hospital Rotunda de Dublin. 

A causa de sua morte foi o resultado de uma série de moléstias na gravidez de origens desconhecidas, uma doença bacteriana de pele e liberação de gases e, finalmente, pneumonia. Ela teve que deixar seus oito filhos para trás com seu marido alcoólatra e crescentemente violento, o qual normalmente gastava seu último centavo com bebidas. Então, eles ficaram abandonados, sem ajuda, aos seus caprichos. Ao menos, é o que ela tinha que presumir...

Vinte e um anos depois, uma pequena menina nasceu como a terceira filha de seus pais na Inglaterra. Seu nome era Jenny. Seu pai também parecia muito infeliz no casamento, similarmente ao marido da jovem mulher Irlandesa, Mary Sutton. Logo, tensões crescentes obscureceram a vida da família até, por fim, a mãe e as crianças viverem em perpétuo medo dele.

Foi apenas 13 anos após o nascimento de Jenny que a liberdade veio na forma da separação dos pais, apesar dela já ter sua bagagem pronta desde os cinco anos de idade, pois ela sempre soube que isto iria acontecer algum dia. Uma coisa incomum sobre Jenny era que desde tenra idade ela tinha visões da vida da jovem na Irlanda, de quem ela apenas sabia seu nome, Mary.

A certo ponto a garotinha se refugiou no mundo destas memórias, especialmente as felizes. Mas havia também situações ameaçadoras: por exemplo, a memória da hora da morte desta Irlandesa, uma morte contra qual ela se rebelou, conduzida pelo temor opressivo por seus filhos. 

Sentimentos de profunda injustiça desta morte acompanhavam estes quadros, juntamente a sentimentos de culpa por ter escapado da situação difícil a preço de deixar seus filhos para trás desprotegidos. De fato, a pequena Jenny nunca teve qualquer dúvida de que ela mesma era esta Irlandesa. Mas em breve ela pôde perceber que aqueles que a cercavam não desejavam realmente saber o que quer que fosse sobre estas memórias. Conseqüentemente ela se tornou cada vez mais introvertida.

A situação melhorou consideravelmente após a separação dos pais de Jenny, apesar da miséria financeira que a família teve que suportar por algum tempo a seguir. Sua atividade escolar melhorou sensivelmente e ela pôde se formar. A seguir ela recebeu qualificação oficial em podologia. Pouco tempo depois ela conheceu seu futuro marido e no ano seguinte eles já estavam procurando por uma casa. Eles encontraram um belo chalé que se localiza em um pequeno povoado cercado por campos, a cerca de uma hora de trem do norte de Londres.

Mas as memórias da vida da jovem Irlandesa não a abandonavam. Elas a conduziram na busca pelos “seus filhos do passado”, uma busca que poderia tomar anos, mas eventualmente ser coroada por sucesso. Em 15 de maio de 1990, ela falou ao telefone pela primeira vez com um de “seus” filhos daquele tempo, chamado Sonny, seu primogênito. Ela foi tomada pela sensação de alegria e alívio após esta conversa, especialmente uma vez que Sonny aparentou aceitar a situação toda quase que naturalmente e confirmou todas as suas memórias como sendo certas, apesar da surpresa inicial.

Em 1993 ela publicou um livro: “Filhos de Ontem”, na Inglaterra, no qual ela descreve com detalhes sua busca por sua família do passado, e que foi traduzido para o alemão. Reiner Sprenger encontrou-se com Jenny Cockell para entrevistá-la para o “Gralswelt”.

Entrevista

Assim que entrei no chalé pude apenas ficar impressionado com os paralelos entre a vida de Jenny Cockell como Mary como descrito no livro. Novamente ela vive com seu marido e filhos em um pequeno correr de casas situado ao longo de uma alameda tranqüila no interior, com pouco trânsito, encerrado por campos e situado ao lado de um vilarejo maior nas proximidades da capital. 

O chalé tem mais ou menos o mesmo desenho básico daquele em que Mary Sutton vivia naquele tempo. “Não, foi uma decisão inconsciente”, ela riu. “Foi totalmente intuitivo... o único local onde ambos nos sentíamos bem, em casa”. Ela também apontou com uma risada um pequeno saco recostado contra a parede, que continha a mesma variedade de milho com o qual Mary, vivendo na pobreza, alimentou seus filhos. Afirmou que ela ainda gosta de preparar alimentos com milho.

O que me surpreendeu ainda mais, contudo, era a suave coragem, autoconfiança e o humor desta mulher, que estavam sempre presentes em seu sorriso sincero. Bem como era gentil e de consideração sua atitude em relação aos seus companheiros que sempre se abeirou a autonegação. 

Ela foi também muito cuidadosa para não impor seus próprios pontos de vista aos outros. “Porque eu mesma, especialmente enquanto crescia, experimentei esta sensação”, ela explicou, em referência aos muitos adultos que desejavam desmentir suas memórias como produto de fantasia infantil. Mas e esta luz interior e humor? Eu não esperava isto após a leitura de seu livro objetivo e bem-pesquisado. 

De volta ao começo

Desejando prosseguir neste sentido, eu perguntei-lhe a respeito de suas memórias da morte de Mary, que eram acompanhadas por tais sentimentos de culpa. “Quando eu fazia algo como criança, me trazia de volta memórias de já ter feito algo similar como Mary. De alguma forma eu incorporei isto em minhas brincadeiras. 

Mas a memória de minha morte era diferente. Eu não queria me lembrar, não queria pensar no assunto durante o dia! Mas em meus sonhos estas recordações de minha morte sempre avançavam. Toda vez eu acordava apavorada e profundamente abalada, mas eu tinha que reviver a morte de Mary novamente e de novo”.

”Dois sentimentos intuitivos básicos impregnavam estes sonhos de recordações: o primeiro era o medo terrível do que teria ocorrido às crianças e o segundo um sentimento profundo de culpa. Primeiramente me apeguei ao problema com as crianças e tentei encontrá-las – esqueci tudo a meu respeito. 

Havia algo que não ia bem comigo também! E poderia acreditar-se que seria o suficiente ter encontrado a família novamente, saber que eles estavam bem, (deixar para trás o sentimento de culpa). Mas não era o suficiente; eu tinha que voltar ao quarto onde eu morri anteriormente – estranho!”.

Isto, ela me contou, ocorreu apenas alguns anos após a publicação de “Crianças de Ontem” e sua reunificação com sua família anterior. Uma companhia de televisão americana que estava fazendo um documentário sobre ela tentou persuadi-la a locar o quarto no Hospital Rotunda na qual ela morreu para poder filmar lá. Ela recusou-se a fazê-lo, contudo, mas no lugar disso, produziu um esboço do qual a enfermeira encarregada pôde identificar o quarto como pertencente à antiga ala de isolamento.

“Só foi possível me perdoar após ter visitado este quarto novamente. Intelectualmente eu tinha aceitado minha morte. Eu não poderia ter sobrevivido às enfermidades pós-parto especialmente sem antibióticos. Outra parte de mim não podia pôr isto a termos, pelo menos não até estar naquele quarto de novo. Depois de tudo, eu passei por incríveis altos e baixos, que duraram por muitas semanas, o processo de chegar a um termo e de aceitação. Contudo, no final disso eu me senti liberada destes sentimentos de culpa”.

Uma longa pausa se deu, durante a qual ela refletiu sobre a situação. “Eu pensei que tudo seria melhor depois de encontrar a família, mas, levou muitos anos para eu começar a perceber como estas percepções do passado se relacionam com o que sou hoje. Até certo ponto eu tinha que deixar a família ir (a daquele tempo), e prosseguir. Eles são amigos – mas eles não precisam mais de mim. 

Eles amam me ouvir, amam quando eu os visito, mas isto é tudo. Não sou mais sua mãe. Esta foi a parte mais difícil, este ”deixar partir”, e compreender que eu devo prosseguir vivendo esta vida. A um certo grau, este processo de deixar ir embora aquela que um dia fui eu, representa um tipo de perda similar ao experimentado pela morte de um amigo.”

Imediatamente após sua morte, os filhos de Mary foram retirados da guarda de seu pai por ordem das autoridades. Isto ocasionou que as crianças, especialmente as meninas que, diferentemente dos meninos, não fossem colocadas em um orfanato, mas em um internato dirigido por irmãs católicas, o que foi muito melhor do que seria se continuassem na família de Mary. 

Ela, Jenny, é hoje de opinião de que a presença de Mary não teria protegido as crianças dos ataques de seu pai por muito mais tempo. Sonny, o filho mais velho daquele tempo, nascido em 1919, relatou depois que Jenny Cockel o encontrou de novo, que sua mãe e os filhos eram regularmente surrados com um cinto. 

Eu também percebi que ela nunca proferiu uma palavra de rancor ou acusação contra seu marido daquele tempo, nem no seu livro, nem a qualquer outro momento.
“Eu creio que, quando se examina bem de perto porque as pessoas se comportam da maneira que fazem, pode-se geralmente encontrar a razão. 

E acredito que algo aconteceu a ele durante a guerra, pois ele era totalmente diferente antes. Mesmo quando a guerra estava em andamento, tudo estava em ordem. Algo lhe aconteceu que ele não conseguia comentar e levou-o ao alcoolismo”.

Outra “saída fácil”?

Não apenas as memórias de sua vida na Irlanda apareciam para Jenny Cockell, mas também alguns fragmentos das outras vidas anteriores, apesar de que em grau limitado. Uma destas memórias que era muito clara e surgia sempre de novo, se relacionava à morte de uma jovem japonesa, uma vida que em sua opinião foi anterior à vida de Mary. Os paralelos entre a morte de Mary e desta outra eram motivos para reflexão:

“E há outra memória que era muito clara: da vida no Japão imediatamente antes da minha vida como Mary. Uma vida muito, muito curta. Eu me afoguei quando estava com 17 ou 18 anos. Posso me lembrar bem do vilarejo. Nossa casa ficava numa colina e eu podia ver a baía. Eu nunca tinha permissão para brincar com as crianças do vilarejo. 

Elas pertenciam a outra classe social e eu tinha que ficar longe delas. Eu também posso ainda me lembrar de diversas viagens de barco. Eu estava prometida a um homem. Eu não queria me casar com ele, mas eu havia sido prometida a ele. E então eu caí do barco e, estranho dizer, eu senti culpa. Eu pensei que tinha de alguma forma tentado escapar desta vida.”

Entre Vidas Terrenas

Podemos agora discutir o tempo passado entre as vidas terrenas. Um assunto que não é tocado em “Os Filhos de Ontem”, além do medo, não ser levada a sério. O que ela ainda se lembra disto é “muito estranho, muito esquisito”. O relatado a seguir aconteceu imediatamente após a morte dela no Hospital Rotunda:

“Eu me lembro de como eu estava olhando para baixo, para o meu corpo, do canto (do teto logo acima). Alguém entrou no quarto e rapidamente saiu novamente. Deveria ter sido uma enfermeira. Alguém mais entrou e se ajoelhou ante a cama. Eu antes achei que era o marido de Mary – mas agora creio que era provavelmente um padre”.
“Eu me lembro de olhar para meu corpo por algum tempo. Então caí como se tivesse sido empurrada e como se todo meu corpo ficasse curvado (como um feto). 

Durante todo este tempo eu pude apenas ver o quarto do hospital. Então se deu como se tudo ao meu redor se fechasse e eu fui rapidamente dragada para trás. Eu não fui através de um túnel e não vi qualquer luz ao final, pois eu estava olhando para outra direção; eu ainda estava concentrada no quarto. Eu não queria abandonar o lugar. Eu finalmente vi que havia luz ao meu redor, comparável a diferentes pilares de luz coloridos. Eu estava em algum outro lugar”.

“Agora vem algo que eu não me lembro muito bem de todo. Era tudo tão diferente e era como se eu não fosse nada além de uma bola de energia que radiava luz. Havia muitas outras bolas de energia ao meu redor, envolvidas por um tipo de membrana, como uma bolha de sabão. E eu sabia que estas outras energias eram seres humanos.”

“Onde eu estava, havia pessoas por toda volta, acima, ao lado e ao meu redor; estas energias estavam por toda parte. Mas me parecia que eu estava como que conectada a eles. Em parte podia perceber que eles percebiam. Eu me sentia como sendo parte deles. Eu estava mais conectada com eles do que separada, que é totalmente diferente ao que é aqui! Aqui se sente completo em si mesmo, separado dos outros, ao menos a certo ponto”.

“A maior parte do tempo eu estava envolvida em um tipo de luz branca, e à distância parecia haver muitos pilares de luz que pareciam azuis, profundamente azuis”.

“Ainda tudo é atemporal lá. Isto é outra coisa. Tudo é o mesmo. Sempre as pessoas me perguntam: ”O que se faz lá?”, mas não se tem que fazer nada lá. Não há qualquer sentido de tempo. Se não se tem o senso do passar do tempo, um momento pode durar um minuto ou dez anos e pode não fazer qualquer diferença, então não se tem que fazer algo, pois se é parte de um todo. Isto é extremamente difícil de explicar aos outros”.

Eu notei que esta condição de ser uma cápsula transparente, envolvida por uma membrana também nos remete ao nosso estado embrionário no útero materno. Lá também, estamos em um tipo de “visão através de uma bolha” envolvida por uma membrana. A própria bolha é preenchida com fluido amniótico. Talvez o que ela descreveu é uma parte da transição para o além, tal como o estado embrionário no útero é parte do processo de vir a este mundo.

“Sim”, ela analisou, “os padrões se repetem na natureza, você não acha? Apesar disso eu tenho a impressão que a grande parte de meu tempo foi passada nesse estado. É do que eu mais me lembro.”

Entrevista colhida por Reiner Sprenger

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